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Dorian, um amigo

Por Diogenes da Cunha Lima

Arquivo de Diogenes

Dorian Gray Caldas (1930-2016) era professor da arte de viver. Um homem feito em cores, ouro e cinza. O próprio nome sugere: Dorian (o ouro) e Gray (cinza). Nascido em Natal, o artista era polímata: pintor, desenhista, tapeceiro, desenhista gravurista, escultor, poeta, ensaísta, historiador. Apoiado pelos deuses, seria feito o seu destino: “... debaixo / é nossa língua os deuses / escrever o nosso destino”. Inovou em sua arte: “Que posso sonhar / que já não sonharam?”. Em tudo o que faz, o lirismo e a inovação: “Nenhuma lua morre em minhas mãos”.

Pintor de emoções, fraterno artesão, escultor da palavra, o artista de Natal são algumas expressões, insuficientes como adjetivos. A sua arte exige neologismos: doriânica, para o doriânico amigo da cidade. Já se disse que Dorian Gray não é apenas personagem, é nobre personificação de Natal. A escolha do seu nome de batismo já foi uma destinação do menino às artes, à literatura.

O acadêmico Dorian Gray Caldas é um inovador diário. Trabalhava, com o seu talento, Natal e os seus habitantes. Ele próprio era uma indicação da Cidade, vaidosa do que ele fazia. Era um artista completo. Pintava e encantava com tapetes. Desenhava e fazia esculturas. Fazia seus próprios livros e ilustrava os dos outros. E derramava poesia em tudo o que fazia. Até as suas amizades eram densamente poética. Era um promotor de cultura. Descobria o lado bom das pessoas, enfatizava o que de estético produzia o artista do Rio Grande do Norte. Se tinha um defeito como crítico, era por não querer ver a imperfeição do que os outros

produzem.

A sua poesia é a presença da natureza, da religião, sentidos e sentimentos que reclamam de nossa alma a consciência de que, vindos do pó, para onde retornaremos, somos mais que areia a escorrer na ampulheta da vida. Poesia de comunhão de formas, cores, signos, perfume, calor, sons em harmonia. A sua pintura insinua-se, réstia de sol aquecendo a sensibilidade, iluminando sombras no coração dos mistérios. Ondas do mar que fluem e refluem, espumas de refrescante leveza, cais às margens do rio, doces frutos, o lado estético de amarguras. Flores e vento, juntos em lírico balé, orquestra de lembranças regida pela saudade. Cantigas de deuses, embalados por estrelas. Luar, arco-íris noturno. Deus, lenitivo de feridas, de dores aplacadas.

Transformava em artes plásticas o que Câmara Cascudo escreveu, o mar antigo e sempre novo, o homem e o seu chão, a cor estabelecendo o que vem na alma: “Pinto as pessoas que ainda se alegram e que se vestem pensando que são reis, rainhas”. O povo sempre acrescenta ao tangível o seu imaginário. Em admirável síntese, ao receber o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, disse o que era a sua vida e o seu trabalho: “Sempre tive e tenho a destinação inequívoca da verdade. O homem nordestino/brasileiro, com seus fazeres e seus sonhos, suas fantasias e seus fetiches, sua fé e os seus ritos. Mitos. Não temo o desagrado e raramente pinto flores. Não ponho maquiagem no rosto dos que sofrem, frequentemente obtenho mais do que me proponho e, razoavelmente, registro a alma subliminar dos que amo.”

“Venho da infância com esta compulsão para a arte, a poesia, o sonho. Desenhei nos meus primeiros anos com fúria e paixão. Tudo que via, percebia , era uma extensão de minhas mãos, da minha sensibilidade. É natural que este exercício fundamentava-se na apreensão figurativa imediatamente observada e copiada. Algo, todavia, já transbordava dos registros. Desenhava semelhanças com relativa facilidade. Incorporei depois a escultura, a pintura, os fundamentos teóricos e técnicas essenciais à construção do meu trabalho: nascia a gravura, a tapeçaria, o afresco, o mural a cerâmica, os metais, o óleo. Vindo de informações acadêmicas, sem escolaridade, certamente chegaria ao moderno pelo mesmo caminho, pelo autodidatismo, adaptativo vocacional intuitivo, exercitado pela capacidade receptiva de sentir a arte e premiar as minhas prioridades eletivas.”

“Assim caminhei em direção dos registros humanos, segmentos, marginalidade, rio, mar, autos da cidade, luz e cor, fantasias de reis rainhas, fugas coloridas da miséria de muitos, redivivas pelo ritmo da dança, os papéis coloridos dos brincantes; as luas de falsos metais, o brilho dos punhais, a festa aguda e deslumbrante das peripécias urbanas.”

A sua obra plástica ornamenta recantos do Brasil. Está também na França, Ardenas, onde foi premiada e, em muitos outros países. Ao recriar o Universo, Dorian Gray vive a Arte. Ele reabilitou, revalorizou o nome famoso. Que não é pseudônimo. Outros ainda lhe farão o retrato. Verdadeiro, viril, criador, que engrandece a nossa cidade.

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