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Feminismo: um ideal para todos

O movimento feminista se fortalece a cada dia para ampliar o conceito de igualdade de gênero e não a sobreposição da figura da mulher em relação ao homem.

Por Larisse de Souza

John Kleiton

“Ninguém nasce mulher, torna-se.” A máxima da escritora e filósofa francesa Simone de Beauvoir, publicada na obra “O segundo Sexo” (1949), arrebatou o mundo do século 20 com o pioneirismo da organização de protestos públicos para garantir a igualdade de gênero. Não é equívoco atestar que o movimento que alçou as mulheres à berlinda na sociedade permanece cada dia mais atual.

Esse entendimento permeia uma série de situações diariamente impostas às mulheres na sociedade contemporânea. Os indicadores de referência para a construção de políticas públicas no Brasil mostram que as mulheres são a maioria da população brasileira, de eleitoras, com formação em nível superior. Contudo, no mercado de trabalho, ainda amargamos receber uma remuneração abaixo da que é paga aos homens.

Na participação política também somos minoria, não por mera falta de interesse em sermos protagonistas nas decisões coletivas como possa aparentar, mas por termos sido culturalmente lapidadas para seguir convenções as quais não tivemos direito à escolha. Essas são apenas algumas das disparidades de tratamento entre os gêneros masculino e feminino que resistem ao longo do tempo.

Parafraseando Simone de Beauvoir, é chegado o tempo da sociedade conceber a ideia de que ninguém nasce homem, torna-se. Esse é a grande contenda do movimento feminista, ampliar o conceito de igualdade de gênero que, ao contrário do machismo, não tem a pretensão de sobrepor a figura da mulher em relação ao homem, mas colocá-la em um tripé de três R’s: respeito, reconhecimento e relevância.

Contudo, os passos para a construção desse novo modelo de sociedade, antes de tudo, igualitária, vêm sendo paulatinamente retardados por uma cultura antiga e intrinsecamente machista: a recentemente denominada “cultura do estupro”. Sim, ela existe e resiste! A concepção errônea que resulta nos casos de violência sexual contra a mulher pode ser identificada na sutileza do dia a dia, como se fosse um valor a ser perpetuado de geração em geração.

Considerar comum o comportamento de assédio desmedido às mulheres, ser mais permissivo em relação à educação dos meninos e mais repressivos à conduta das meninas, e, até mesmo, rotular de “mimimi” tudo o que disser respeito à indignação do pensamento feminista, são situações aparentemente banais do convívio social que alimentam a cultura do estupro.

Diante dessa realidade estabelecida, a desconstrução de preconceitos em relação ao empoderamento da mulher vem centralizando as organizações feministas e passam a atrair a atenção até mesmo dos que permaneciam inertes sobre o assunto. Afinal, como ficar indiferente aos casos do estupro coletivo sofrido por uma adolescente de 16 anos no Rio de Janeiro, e ao da adolescente de 14 anos violentada pelo próprio pai e tachada de mentirosa por um promotor de Justiça?

Certa vez, assisti a um vídeo na Internet onde homens eram paquerados por homossexuais. Era uma simulação para perceber as reações masculinas ao serem abordados. A maioria delas beirou a violência. Os homens se sentiram incomodados em sua posição de machos. Então, por que as mulheres são obrigadas a gostar ao ouvir um (des)conhecido falar grosserias disfarçadas de elogios?!

Reverter à lógica, fazer o nobre exercício de se colocar no lugar do outro é começar a analisar a figura da mulher sobre o tripé dos três R’s. Até que isso aconteça, o movimento feminista sempre renovará o fôlego para tentar desarraigar a ideia sexista de mulher submissa/objeto/fútil/frágil. Uma frase atribuída a Mahatma Gandhi, um dos maiores pacifistas da humanidade, diz “seja a mudança que você deseja ver no mundo”. Neste sentido, essas breves palavras podem ser pertinentes por ousar trazer à reflexão de que o feminismo pode ser um ideal para todos.

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