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Ser mãe: uma história sem fim

“Ser mãe é amar alguém mais do que a você e ver esse sentimento crescer a cada instante, como se não fosse mais caber no peito”.

Por Jussara Correia

João Gilberto Sobrinho

O bebê adormeceu! Corre, pega o computador e começa a escrever o texto sobre a experiência da maternidade. Bem, posso começar dizendo que é, sem dúvidas, o sentimento mais intenso que já experimentei. Ops, ouço um chorinho... o bebê acordou! Daqui a pouco eu retomo. E foi, mais ou menos assim, entre um cochilo e outro, entre uma mamada e outra, que eu consegui concluir esse relato.

Aliás, essa história nunca terá um fim, pois a experiência é tão nova e surpreendente a cada instante que até mesmo quando eu estiver velhinha ainda vou ter coisas para contar sobre “ser mãe”. Mas começo dizendo que a maternidade mudou tudo aqui por dentro. Meu filho nasceu e eu renasci. Francisco é o seu nome. Isso mesmo, nome de santo, nome de velho, como muitos vieram me dizer no momento em que o escolhi. Mas, na verdade, Francisco sempre existiu no meu coração. O filho e o nome, que para mim representa bondade, desprendimento, respeito, caridade e revolução. Sim, isso mesmo, revolução! Pois o homem que me inspirou nessa escolha pensou no outro mais do que em si. Para mim, esse ato de amor é revolucionário.

Eu sempre dizia a todos que o meu maior sonho era ser mãe e que eu vivia para ver este dia chegar. Quando, de fato, eu soube que estava grávida, confesso que senti medo. E agora? Como será a minha vida daqui para frente? Será que eu dou conta? Bem, o que eu posso dizer é que a natureza age. E é muito impressionante essa coisa do instinto. E creio que isso acontece não apenas com mães biológicas, mas com as mães de coração também. Afinal, maternidade é uma coisa, parir é outra. Umas nascem para viver essa experiência, outras apenas colocam filhos no mundo. E hoje eu sei a diferença. Sei daquilo que todos me falavam: ser mãe é amar alguém mais do que a você e ver esse sentimento crescer a cada instante, como se não fosse mais caber no peito.

Mas, vamos começar do começo: a gestação. A tão temida fase dos enjoos, dores, desconfortos com o peso, cuidados a mais com a alimentação, entre outras coisas. Posso dizer que fui muito abençoada durante as 38 semanas e quatro dias em que estive grávida. Ah, essa coisa de contar os meses por semanas irritava muita gente que me perguntava em que estágio da gravidez eu estava. Mas é a forma como nós aprendemos a contabilizar a espera. E que doce espera! Montar o enxoval e sonhar, sonhar muito com o rostinho do bebê. Será que vai parecer com o papai ou com a mamãe? Bem, quem o conhece diz que é a minha cópia.

Atravessei o momento da gestação com alegria. Não tive enjoos, nem problemas de saúde e pratiquei atividade física até as últimas semanas antes do parto. Ao final, é claro, o cansaço vai chegando, até porque ganhei 11 quilos e eu nunca havia estado com aquele peso. Então, a gente pensa: “Está chegando a hora”. Será que conseguirei ter o tão sonhado parto normal? Será que eu suporto a dor? Será que não é melhor fazer uma cesárea? Mas a recuperação é tão dolorosa. E a amamentação? Será que vou ter leite? Junto a estes questionamentos ainda existem os famosos “pitacos” de pessoas que nem sempre querem te ajudar. Sempre acolhi as dicas de familiares e amigos que tentavam me deixar melhor e mais segura. Mas tive que “engolir” muitos comentários deselegantes e desagradáveis, que tantas vezes me magoavam.

“Ele estava tão lindo! Parecia um sonho”

O tempo passou e chegou o grande dia. Assim como eu imaginava, Francisco veio de surpresa, dez dias antes da data prevista para o parto. Como na maioria dos casos, comecei a sentir as contrações de madrugada, mas não imaginei que havia chegado a hora. Passei o dia indo a clínicas fazer exames de rotina, depois fui mostrá-los à obstetra. “Doutora, estou sentindo dores desde as 3h30 da manhã”. Ao me examinar, veio a notícia: “Você está em trabalho de parto. Vá para o hospital se internar que mais tarde eu chego”. Oi?! Como assim?! Então, vamos lá. Resolvi tudo, fui em casa buscar as malas e me internei por volta das 19h.

Francisco nasceu no dia 31 de maio de 2016, uma data que, para mim, era mais do que especial. Sou católica e devota incorrigível de Nossa Senhora. No dia em que ele chegou, a Igreja celebrava a Coroação de Maria, dia muito importante para os fiéis da minha religião. E aquilo me deixou muito emocionada. Às 22h30 - hora do seu nascimento -, eu vivia um turbilhão de sensações. Imaginava que seria lindo e especial, mas ao ouvir o choro do meu filho, meu mundo parou. E o relógio começou a registrar o tempo de forma diferente a partir daquele momento. Era uma nova vida, uma nova Jussara.

O parto não foi normal, pois não havia condições. Após a cirurgia, tive uma pequena complicação que logo foi contornada pela equipe médica. Ao chegar ao quarto do hospital, o segundo encontro com meu filho e a sensação de ter a personificação do amor nos meus braços. Ele estava tão lindo! Parecia um sonho. Tudo havia, de fato, mudado. Eu, que já me considerava mãe desde a época da gestação, naquele momento tive a certeza dessa missão.

O cansaço, as dores do trabalho de parto, todos os medos e angústias que me cercavam durante os nove meses de gravidez haviam se desmanchado como açúcar no café. Olhar o meu filho, tão pequeno e indefeso nos meus braços, ouvir seu choro, sentir seu cheiro, tocar a sua pele. Como descrever sensações tão intensas? Impossível. Só posso dizer que é como se houvesse uma festa com fogos de artifícios dentro de mim.

Logo que chegamos em casa, nos deparamos com as enormes mudanças que aconteceriam daquele momento em diante. A rotina, de fato, deixava de existir e tudo girava em torno daquele pequeno ser, tão dependente de nós. A fase de adaptação foi suavizada com o amor dos amigos e familiares que sempre estavam por perto para nos ajudar. Nossa casa estava sempre cheia de afeto e, mesmo nos dias mais cansativos, fazíamos questão de receber todos que traziam tanto carinho para nós.

“Francisco me ensina que preciso ter coragem”

Eu poderia escrever páginas e mais páginas falando sobre a delícia de ter um filho, mas sei que muitos diriam que estou poetizando demais. Também poderia descrever as dificuldades desses primeiros dias com o bebê, mas correria o risco de ser chamada de ranzinza. Na verdade, quem tem filhos e quem não tem deve imaginar que os primeiros meses de uma criança fazem seus pais chegarem ao esgotamento físico e mental, mas também os levam ao extremo das mais belas emoções.

O que eu gostaria de deixar registrado neste texto é o que o meu filho me ensina todos os dias. São lições suaves de amor, simplicidade e coragem. Ele me ensina a ser paciente quando o seu choro parece não ter fim. Mostra-me que um olhar de carinho pode curar qualquer dor e que um sorriso sincero - ainda que sem dentes -, enche a vida de qualquer pessoa com a mais genuína alegria. Meu filho me ensina que a presença é mais importante do que qualquer presente comprado numa loja e que não importa a roupa que estou vestindo, ou quanto eu tenho de dinheiro no bolso. O valor de alguém está no sentimento que ela dedica ao seu próximo. Francisco não tem noção se o seu quarto custou “x” ou “y”. Ele só quer dormir em paz, seja num colchão, no berço, numa rede, num sofá. Ele ganhou uma banheira de presente, mas gosta mesmo é de tomar banho numa bacia que custou R$ 20.

Francisco me ensina que preciso ter coragem. Que preciso resistir. Que a dor e o cansaço chegam, mas tenho que me refazer. Por ele e por mim. O meu filho me ensina a rezar todas as noites antes de dormir, olhando para ele dormindo tranquilo no seu berço. E que nossa oração não precisa ser longa, só precisa ser de gratidão. Ele também me ensina muito sobre Deus e Seu grande amor por nós. Que morrer por alguém é sublime e viver por esse alguém é sagrado.

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